Douay-Rheims 1899
- Tipo
- Tradução
- Língua
- Inglês
- Cânon
- 73 livros (cânon completo)
- Salmos
- Numeração da Septuaginta e da Vulgata
- Joel e Malaquias
- Divisão ocidental (Joel com 3 capítulos, Malaquias com 4)
- Licença
- Domínio público
História
No fim do século XVI, parte importante do clero e dos centros de formação católicos ingleses estava no exílio. O colégio que formava o clero inglês tinha sido fundado em 1568 por William Allen (1532 - 1594) — depois cardeal — em Douai, na Flandres, então domínio do rei da Espanha. Foi desse colégio no exílio que saiu a primeira Bíblia católica completa impressa em inglês
O motivo era polêmico antes de ser devocional. Circulavam várias traduções inglesas de origem protestante, citadas com desenvoltura nas disputas de religião, e faltava ao lado católico um texto inglês próprio a que pudesse recorrer. A maior parte da tradução coube a Gregory Martin (1540 - 1582), antigo aluno do St John’s College de Oxford, que traduzia cerca de dois capítulos por dia; Allen, Richard Bristow (1538 - 1581), Thomas Worthington (1549 - ~1627) e William Reynolds (1544 - 1594) revisavam o que ele fazia. As notas foram preparadas por Allen, com Bristow e Worthington, para responder aos argumentos teológicos dos reformadores um a um.
Em 1578, dificuldades políticas transferiram o colégio de Douai para Reims, e foi lá que o Novo Testamento saiu, em 1582, impresso por John Fogny. O Antigo Testamento, cuja publicação fora adiada sobretudo por dificuldades financeiras e pelas circunstâncias do colégio, só apareceu em dois volumes, em 1609 e 1610, quando o colégio já tinha voltado a Douai. Daí o nome duplo — Reims para o Novo Testamento, Douai para o Antigo.
O inglês que se lê hoje sob esse nome, porém, não é o de Martin. Entre 1749 e 1752, o bispo Richard Challoner publicou uma série de revisões do Novo Testamento e do Antigo, querendo uma Bíblia de tamanho e preço moderados e de inglês legível; muitas de suas alterações, tendo a Vulgata como referência, aproximaram-se da redação da Bíblia do Rei Jaime (Authorized Version) protestante, sobretudo no vocabulário e na cadência do inglês. O Cardeal John Henry Newman (1801 - 1890) achava que as mudanças eram tão significativas que “quase equivaliam a uma nova tradução”; Wiseman escreveu que continuar chamando aquilo de versão de Douai era “um abuso de termos”. A edição americana de 1899, digitalizada aqui, pertence a essa linhagem posterior.
Curiosidades
O Novo Testamento de Reims apareceu quase trinta anos antes da Bíblia do Rei Jaime inglesa e estudos posteriores demonstraram que ela exerceu influência significativa sobre ela — uma tradução feita expressamente contra as versões protestantes acabou deixando marcas na mais famosa delas.
Outro aspecto característico da Douay-Rheims é sua relação com a Vulgata. A tradução original tomou o texto latino como base, embora os tradutores também o comparassem com o hebraico, o grego e outras versões. Isso deixa marcas visíveis quando o texto é colocado lado a lado com os idiomas bíblicos originais. Um exemplo famoso aparece em Gênesis 3,15. A Vulgata Clementina lê ipsa conteret caput tuum — “ela esmagará a tua cabeça” — e a Douay-Rheims acompanha essa leitura: “she shall crush thy head”.
A diferença fica especialmente interessante quando o texto é comparado com o hebraico bíblico. O Códice de Leningrado, o mais antigo manuscrito completo do texto massorético da Bíblia Hebraica, conserva em Gênesis 3,15 a forma הוּא (huʾ), pronome masculino singular. A oração hebraica, portanto, apresenta um sujeito masculino, enquanto a Vulgata Clementina traz ipsa, feminino.
A tradição católica portuguesa posterior conserva a leitura latina. Na tradução do Pe. Matos Soares, baseada na Vulgata, encontra-se também “ela te pisará a cabeça”. Assim, o leitor pode observar uma linha textual particularmente interessante: o hebraico massorético do Códice de Leningrado apresenta huʾ (“ele”), enquanto a Vulgata e traduções católicas dependentes dela apresentam a leitura feminina ipsa (“ela”).
A questão, porém, é mais complexa do que simplesmente dizer que a Vulgata “traduz o hebraico de maneira diferente”. A tradição manuscrita latina de Gênesis 3,15 apresenta também variantes como ipse e ipsum, e a história dessa leitura é antiga. A forma feminina ipsa adquiriu enorme importância na tradição cristã ocidental e, posteriormente, na interpretação mariana do versículo. Por isso, a comparação entre o Códice de Leningrado, a Vulgata, a Douay-Rheims e Matos Soares permite visualizar não apenas diferenças de tradução, mas também a transmissão e a interpretação do texto bíblico ao longo dos séculos.